Curadoria de Lara Maia

Para Lia Matos, tudo começa com uma transformação. Não como um tema, mas como um estado contínuo, um movimento que atravessa o corpo, a matéria e o tempo. Cada obra nasce desse lugar de passagem, no qual experiências, encontros e forças invisíveis se organizam em novas formas de presença.

Sua pintura é, antes de tudo, um gesto de escuta — uma escuta que se dirige ao outro, à natureza e a si mesma, captando aquilo que não se fixa em palavras: vibrações, memórias, afetos, deslocamentos. Ao longo de seu processo, a artista absorve essas camadas do mundo e as traduz em superfícies densas, onde cor e gesto operam como energia em circulação.

Na exposição Quando a Água Aprende a Queimar, Matos parte de paisagens abstratas para criar espaços interiores, campos energéticos que permitem que o invisível evidencie-se lentamente a partir de tensões e sobreposições. Seu processo se inicia com um gesto de liberação, como se algo precisasse ser retirado de dentro para então ganhar forma. A partir daí, a tela se transforma em interlocutora. Cores convocam outras cores, camadas se acumulam; apagamentos e reaparições constroem uma imagem que não se impõe de imediato, mas se revela no tempo, como um organismo em desenvolvimento.

Em alguns de seus trabalhos, essa dinâmica se expande para o encontro direto com o outro. Ao escutar histórias de pessoas, conhecidas ou desconhecidas, Lia incorpora essas narrativas em suas pinturas, criando imagens que não pertencem exclusivamente a quem as produz. Há, nesse gesto, uma tentativa de construir espaços onde o outro possa se reconhecer, como se a pintura operasse também como um lugar de acolhimento e permanência.

A transformação, aqui, é também atravessada pela presença do fogo, elemento recorrente em sua produção recente. Para Lia Matos, a chama surge como força interior que orienta, sustenta e mantém vivo o impulso da existência. Símbolo ancestral em diferentes cosmologias, o fogo ilumina a escuridão, atrai o olhar, aquece, convoca e revela. Porém e também ambivalente, o fogo das paixões atravessa o corpo, consome e, ao mesmo tempo, germina; pode enegrecer a floresta, mas também multiplicar o novo crescimento. Na pesquisa da artista, essa energia se converte em campo fértil de criação: transformar é ter a coragem de queimar o que já não serve, permitindo que outras formas de vida emerjam.

É nesse ponto que o fogo encontra a água. Se a água é imagem do fluxo, da emoção, daquilo que nutre e sustenta a vida, aprender a queimar significa romper qualquer destino fixo. Significa admitir que mesmo o que parece dócil e mutável pode conter intensidade e desejo. Quando a água aprende a queimar, a realidade abandona suas definições estáveis: o flúido entra em combustão, a paixão toma forma, e o mundo se torna novamente possível.

Na mostra, o conjunto de trabalhos envolve o corpo do espectador e o convida a atravessar as obras como passar por portais e adentrar, circular, permanecer e, talvez, até se reencontrar no caminho. Suas pinturas operam como encontros entre paisagem e interioridade, memória e matéria, escuta e desejo. Cada obra torna visível aquilo que está em processo de mudança, interno ou externo. Em Quando a Água Aprende a Queimar, até o que permanece se transforma.